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Quando o mar é calmaria, a gente não percebe o tempo passando.
Quando a brisa sopra suave, a gente se imagina eterno. E nem percebe que o vento carrega em si a possibilidade da mudança, que a calmaria pode ser a acumulação interna de explosões.
De repente, tudo muda. E o marinheiro inexperiente dança, a dança de não saber. Quando em lugar de mil palavras, vem um silêncio atordoante, precedendo o vazio. Quando projetos não passam de devaneios. Quando a ilusão dos sonhos ganha a superfície do cotidiano.
No entanto, o vento que destrói é o mesmo que carrega novas sementes.
O mar que se revolta é o mesmo que se acalma e se abre à aventura dos navios. Talvez por isso, os velhos marinheiros costumam ser calados.
Guardam, consigo, segredos dos caprichos do mar. Mantém os olhos serenos e alertas, pois os sinais que vem de longe são tênues e inconstantes e, se dormirem no cais, não percebem as mudanças.
Quis aprender. E perguntei a um velho marinheiro aposentado, que
fazia café, enquanto o filho acordava para mais uma jornada nas águas da
Bahia. Mar a dentro, em águas que misturam promessas, alegrias ou
desilusões diárias. Um mar tão grande e forte e, no entanto, tão suscetível
aos caprichos da lua , do vento, das razões de seu íntimo descontrole
emocional. Que reage ao calor ou ao frio como se fosse uma criança
desamparada. Que se perde e avança, sem se dar conta das necessidades dos filhos de Iemanjá, sua rainha.
- Seu João, o senhor aprendeu?
- Nunca. Por mais que se aprenda, o mar não se repete. E o vento
sempre encontra um jeitinho de enganar, disfarçando tormentas em assovios e carícias. O que aprendi foi a respeitar esse velho companheiro, a perceber que suas águas podem ser acolhedoras, mas trazem sempre consigo os limites do sal.
Rio de Janeiro, lua nova de novembro, primavera de 2007, noite de chuva,
saudades do mar.
Tarde demais para nós dois
(Mellíss)
Olho para trás,
vejo a história que escrevemos até aqui,
localizo a exata página na qual nos encontramos,
vagando perdidos entre as linhas em branco deste dia.
Sentamo-nos exaustos nos cantos deste diário antigo,
em cujas entrelinhas escondemos decepções e mágoas,
quando as palavras calaram silencios repletos de perguntas
que deixamos sem respostas,
dúvidas que jamais sanamos,
enganos que não pudemos admitir,
erros que assumimos sem pedir perdão,
perdão que concedemos sem saber esquecer...
A vida não é como um rascunho
que nos permita passar a limpo os nossos atos,
pois é feita de fatos que ficam registrados,
é maculada irreversivelmente pelas digitais que deixamos
na face cristalina dos nossos dias
ou nas máscaras feitas com a matéria-prima dos nossos sonhos.
Olho para trás
e já não nos reconheço nestas páginas vazias,
despidas de esperanças , nuas, frias !
É tarde para tentar um capítulo qualquer, um parágrafo de amor
num romance sem final.
Fomos personagens incendiados de ilusão,
apagados pelo tempo, feitos de solidão .
by Angélica T. Almstadter
Essas enormes avenidas que me recobrem o corpo...esses rios caudalosos que já cantei em tantos dias e em tantas noites seguidas...levam e trazem vida...acolhem nas margens uma imensidão de imagens...
Essa vida que brota exuberante em tons vermelhos faíscantes jorra como nascentes límpidas e escorrem silenciosamente cumprindo um itinerário regiamente traçado...
Mas o ar denso que adentra pelas narinas transita pesado...quase parado...se engasga reticente entre os jardins alveolados das minhas reservas ...enroscam na engrenagem...rangem...sibilam...abreviam a vida...
que ainda contente se esparrama petulante ...entoa lamentos serenos...faz serenata enluarada nessa dimensão imprecisa....como lâmina que escraviza e mata solenemente...cruelmente...
A vida que agita e se guarda aflita...percorre as linhas e curvas...pranteia e se lança...quase como vingança pelas fornalhas acesas que queimam incessantes, acessas cortantes...
Fecho os olhos e inalo silente...o pouco de vida que me é servido em doses miúdas...nas taças brilhantes ...que já não são fartas como antes...transbordam chorosas...e escorrem sem cor para vala comum...ou se espalham no vento sem aceno....
Palavras
by Gabriel Perissé
"...Palavras doces enjoam depressa.
Palavras de fogo
tornam-se cinzas inúteis,
que o vento leva...
Palavras comuns
se perdem em qualquer lugar.
Palavras morrem pela boca.
Palavras extraordinárias
ficam na beira da estrada..."
Fragmentos do Poema
A Bruxa Solitária
by Rae Beth
"...Que o lugar onde habito seja como uma floresta.
Que haja caminhos e veredas para as cavernas e poços,
árvores e flores, animais e pássaros,
todos conhecidos e por mim reverenciados com amor.
Que minha existência mude o mundo não mais nem menos
do que o soprar do vento,
ou o orgulhoso crescer das árvores.
Por isso, eu jogo fora minha roupa.
Que eu possa conservar a fé, sempre.
Que jamais encontre desculpas para o oportunismo.
Que eu saiba que não tenho opção,
e assim mesmo escolha como a cantiga é feita,
em alegria e com amor.
Que eu faça a mesma escolha todos os dias, e de novo.
Quando falhar, que eu me conceda o perdão.
Que eu dance nua, sem medo de enfrentar meu próprio reflexo..."